o buril deixou de picar a mármore. ouvia-se só os anjos a cantarem através dos altifalantes do leitor de discos compactos. pierre françois falou pausadamente: não sei dizer se acredito em deus.
deixei de saber o que pode querer dizer acreditar em deus. não compreendo a pergunta. deixei de entender as palavras. sei precisamente quando isso aconteceu. nunca o esquecerei. em dachau, como nos outros campos, havia regularmente o que chamavam selecções. completamente nus faziam-nos passar a correr diante de uma mesa onde estavam três juízes, talvez médicos, que decidiam com um simples gesto quem devia morrer de imediato e quem devia prolongar o suplício. alguns de nós cortavam-se nos dedos para tingir com sangue os lábios e parecerem mais saudáveis. depois de uma destas selecções assisti dentro do barracão a algo que alterou a minha vida. até então eu fora ou julgara ser um judeu piedoso. um rabino prostrado no chão rezava em voz alta agradecendo a javé não ter sido um dos seleccionados. alguém em vez dele tinha sido seleccionado. fiquei confuso e perturbado. eu não morro para tu morreres. de certo modo nunca deixei aquele momento e aquele lugar. foi nesse preciso momento que deixei de saber o que quer dizer a palavra."
pedro paixão
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